Ainda há trovoadas

 • Conto Solto, uma outra parte do meu blog.

    06 de janeiro de 2026


 É em uma noite chuvosa que me levanto e, como se fosse no automático, busco refúgio das trovoadas na sala, me aconchegando no sofá junto a meu amor. Após uma briga que resultou em decidirmos por um término em nossa relação. Pelo menos por um tempo, mas eu não acredito nisso de tempo.

 Ele não estranha ao sentir meu corpo e meu toque cada vez mais próximo. Na verdade, é como se ele já estivesse me esperando. Sua pele quente, eu fria, o que o faz ter arrepios, como sempre…

 Eu não me sinto confortável com o barulho de trovões, pra não falar que é medo, pois não gosto desse adjetivo que me faz parecer uma medrosa de algo tão “bobo”. Não é bobo. São sentimentos e, com certeza, há motivos para mim sentir assim.

 Já está amanhecendo, consigo enxergar o que antes era escuridão. Não há mais chuvas, muito menos barulhos. Eric continua agarrado a mim e eu a ele. Ele não está dormindo. O silêncio reina e não houveram palavras ditas. Apenas pensamentos e até alguns olhares julgadores.

 Por que não nos soltamos e seguimos nossas vidas? Será um trauma que me fará perdoar e repensar meus princípios?

 Eu fiz promessas de sempre estar ao seu lado, conviver em quaisquer situações, boas ou ruins.

 Eu me viro de costas para ele, me deitando, ainda assim, confortavelmente em seus braços.

 De conchinha.

— Volte a ficar como estava.

 Eric se desprende a mim, falando firme, não com uma voz sonolenta, da qual eu nem esperava ouvir.

 Não o faço.

 Ele me agarra, me virando para ele e me deixando na posição anterior, cara a cara com alguém definitivamente de mau humor.

 Minha raiva é tamanha. O conheço o suficiente para saber que ele tem muito a falar, mas não vai soltar palavra alguma. Suas sobrancelhas bagunçadas são um charme do qual gostaria de parar de observar. Oh, céus, por que esse imbecil tem que ter tanta beleza?

 Seus cabelos crespos, tão macios… Gostaria de o tocar, o tocar por inteiro.

 Olho para baixo, evitando olhar em seus olhos. Mas impossível para mim, que amo uma quebra de joguinhos. O encaro com cautela, transparente e não querendo passar a mensagem errada. Ele me olha brevemente e volta seu olhar para a janela.

 Atrás de nós há uma vista incrivelmente agradável. Nosso jardim foi muito bem feito pelas mãos de Eric. Mas não me questiono, em momento algum, querer trocar a vista do meu homem nu por uma paisagem. Eric é uma paisagem.

 Minhas sobrancelhas se curvam e meu olhar é questionador. Ele também me olha e assim ficamos por longos minutos. Reparo em sua boca, o contorno dos seus lábios. Volto em seus olhos e me contesto se a decisão de ontem foi a certeira. Mas, sem dúvidas, não volto atrás!

 Fecho os olhos, me arrumando no travesseiro.

 Abro os olhos direto na direção dos seus. É como se valesse por palavras.

 Ele tira seus braços de mim. Sem toque, sem nada dele em mim. Logo, até sem teu sobrenome.

 Ele me beija ferozmente, me agarrando e puxando mais para si. É pouco para ele, pois sobe em cima de mim e continua de onde parou. Sua língua parece desejar me atravessar, e seus selinhos tentam recuperar o fôlego. Nenhuma palavra, até que…

— Não ouse pensar que eu deixaria. Erramos e nos amamos. Só para de me olhar assim. Só haverá separação se for da sua vontade.

 Eric, sem escutar resposta, retorna a me beijar, meu pescoço e ombros, e, sem receber o que espera de mim — arrepios, palavras — sai de cima de mim e, sem procurar meus olhos, sai da sala.

 Sozinha entre os cobertores, com seu cheiro predominante, não há mais chuva, mas ainda há trovoadas em meu casamento.



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